nov 19 2008

A vingança do Timbaleiro

Entrevista Radio Transamerica: Marla, eu, Lu Fiolha, Ildásio Filho e Michele Quem acompanha o Blog, sabe bem que ante-ontem eu tive o prazer de ser entrevistado pelo programa Conexão Transamérica da  Rádio Transamérica (doh!)ontem a noite.
Sempre tive uma enorme curiosidade de conhecer um estúdio de rádio e saber quem eram as pessoas por trás das vozes e foi realmente uma grande experiência.

As coisas são muito, mas muito dinâmicas e, se vocês pensam que o bom do rádio é o que você ouve em casa ou no carro? ESQUEÇA!
A melhor parte, sem dúvida, são os bastidores do programa.
As piadinhas, os comentários, o desespero da produção em encontrar o entrevistado que tinha se atrasado – mas chegou faltando 30 segundos para o programa começar! - as caras e bocas dos apresentadores, coisas que me deixavam em dúvida se estava em uma rádio ou algum programa de Tv, a locutora perguntando se dava tempo de fazer xixi faltando um minuto para o programa começar, os telefones dos repórteres que insistiam em cair – assim como o de quem ligava para a o programa…

Enfim, trocentas mil coisas que só quem já esteve em um estúdio de rádio pode entender.

Parabéns Ildásio, Lu, Michele e Marla e obrigado por me tratarem muitíssimo bem.

Deny da Timbalada e eu Acontece que eu não era o único entrevistado da noite. Antes de mim, faltando poucos segundos para o programa começar, Deny, vocalista da Banda Timbalada entra no estúdio. Sabe aquela cara de criança quando faz alguma coisa errada e não sabe como pedir desculpas? Pois é, foi assim que ele entrou.

Nem de longe parecia o Deny que eu via em cima do palco ou puxando a multidão para dar a volta no gueto nos ensaios da Timbalada. O cara é realmente muito gente fina, simpático e chega a ser quase tímido.

O encontro me fez lembrar de uma pequena história que aconteceu comigo lá pelos idos de 1993.

Neste ano eu estava fazendo um curso de “Educação não-formal” em Israel.

O curso tinha a duração de um ano e era dividido em 3 partes:

Na 1ª, foram 3 meses em um Kibutz – lembram das aulas de geografia? - no norte do país onde tive aulas intensivas de hebraico. Trabalhava um dia e estudava no outro. Éramos um grupo de 32 brasileiros, 9 argentinos e 2 uruguaias.

A segunda parte foram 2 meses em outro kibutz, no sul de Israel no deserto do Neguev – para onde mais tarde imigrei e passei 5 anos da minha vida (os outro anos seriam em Tel Aviv, mas isso fica para outro post). Para este Kibutz foram somente os brasileiros e aprendemos como era realmente o dia-a-dia em um local onde o socialismo realmente funcionava.

Lá, o presidente da fábrica, que pertencia ao kibutz – uma multinacional que ainda hoje é considerada a número 1 no mundo em sistemas de irrigação por gotejamento – recebia exatamente o mesmo “salário” que o carinha que trabalhava como jardineiro e também acordava as 3 horas da manhã para ordenhar as vacas em seu plantão (literalmente enfiando o pé na merda!

A 3ª parte era na cidade de Jerusalém onde parte dos brasileiros, se juntou à jovens do mundo todo para o curso que mencionei acima propriamente dito. Éramos, além dos brazuca, argentinos, uruguaios, costarriquenhos, franceses, australianos, ingleses, peruanos e uma garota chilena.

Acontece que na época, não existia ainda a axé music. Banda Beijo, Chiclete com Banana, Banda Cheiro de Amor, Olodum, Banda Reflexus, Netinho, Luiz Caldas, Daniela Mercury e etc.. faziam o que era conhecido como “musica baiana” e pronto.

Naquele tempo CD’s era coisa de milionários e nem se sonhava com MP3. Ainda andávamos para cima e para baixo com walkmans e fitas K7, que gravávamos da própria rádio, todos - sem exceção éramos piratas.

No ano anterior uma nova banda havia estourado. Vinda da favela do Candeal e comandada por um tal de Carlinhos Brown. Nascia a Timbalada.

Como era o único baiano, quando queria matar saudades de casa eu precisava ouvir minhas músicas no walkman pois o resto dos brasileiros ainda não haviam entrando na onda axé que varreria o país no final de 93.

Ou isso, ou eu aproveitava quando meus colegas de quarto – sim, eu dividia o quarto pois o curso era em uma espécie de semi-internato – que eram curitibanos, saiam para passear na cidade para colocar minhas fitas no som double-deck (o supra-sumo dos supra-sumos na época) que tínhamos comprados juntos e geralmente estava ocupado.

Entre as minhas fitas, tinha uma coletânea de músicas do carnaval daquele ano e, dentre essas, estava a primeira gravação da primeira música da Timbalada: Canto pro mar.

Resumindo: Estava eu ouvindo sozinho no maior volume possível quando a chilena que mencionei antes e, por sinal, era a garota mais linda e gostosa gente-fina de todo o grupo latino (tinha uma francesinha que era a modelo oficial da Pepsi na França, por quem este Blogueiro que vos escreve se enrabichou… YES! ou melhor: OUI!!!), passa pela porta do quarto, entra e diz: Yo conozco esta música.

Eu fiquei sem entender nada! Nenhum dos brasileiros que viajaram comigo jamais haviam ouvido falar da Timbalada. Não haviam gravado nenhum LP, Fita K7 ou Cd ainda. Como uma garota do Chile poderia conhecer?
Para provar que era verdade, ela começou a cantarolar comigo a música com um sotaquezinho de arrasar corações “Vou na Timbalada oiáááá… Canto pro mar!…”

Na hora meu coração foi à mil. Fiquei como se estivesse paralisado por alguns segundos e finalmente dei um grito e a puxei para dançar comigo.

Foram vários e vários meses sendo sacaneado por curitibanos, cariocas, recifenses, mineiros e gaúchos por causa de minha música e uma CHILENA estava cantando comigo?
Foi a glória! Lavei a alma…

Minha maior vingança é saber que hoje em dia, estas mesmas pessoas gastam fortunas para vir para Salvador, pular atrás do trio-elétrico e cantarem estas mesmas músicas que um dia sacanearam tanto…

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